Lei Maria da Penha completa 15 anos; quase 200 propostas em análise na
Câmara visam alterá-la
Tereza: falta implementar
estruturas de proteção previstas na lei
Neste
sábado (7), a Lei Maria da Penha, criada
para coibir a violência doméstica e familiar contra as mulheres e considerada
umas das melhores do mundo sobre o tema pela Organização das Nações Unidas
(ONU), completa 15 anos.
A data
será comemorada na Campanha Agosto Lilás, promovida pela
Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, em parceria com a Comissão de
Defesa dos Direitos da Mulher, com uma série de eventos programados até o fim
do mês.
Na
abertura do evento, a procuradora da Mulher, deputada Tereza
Nelma (PSDB-AL), destacou a falta de implementação das estruturas de
proteção previstas na lei para coibir esse tipo de violência, como as
casas-abrigo e as delegacias da mulher. "O número de delegacias no País só
são 381, nem todas são especializadas só da mulher. De 660 varas do Judiciário,
só 139 são da mulher e da família", apontou.
Ela
defendeu a discussão do Projeto de Lei 501/19, da deputada Leandre
(PV-PR), que obriga os estados a criarem, em suas microrregiões,
Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher no prazo de cinco anos.
Mudanças
trazidas pela lei
Até 2006, o Brasil não tinha lei que tratasse especificamente da violência
doméstica. Esses casos eram enquadrados na Lei dos Juizados Especiais Criminais,
conhecidos como de “pequenas causas”. Assim, um dos ganhos significativos
trazidos pela Lei Maria da Penha foi que, com ela, a
violência doméstica praticada contra a mulher deixou de ser considerada como de
menor potencial ofensivo.
Além de
aumentar a punição, a lei criou os Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher e prevê medidas de assistência à vítima de violência doméstica
e familiar, incluindo medidas protetivas de urgência, como o afastamento do
agressor do lar.
A norma
trata não apenas da violência física, como também da violência psicológica,
moral, sexual e patrimonial. E prevê ainda medidas pedagógicas e preventivas
contra a violência e de reabilitação do agressor.
Segundo
pesquisa do Centro de Documentação e Informação (Cedi) da Câmara dos Deputados,
estão em análise na Casa 194 projetos de lei para modificar a Lei Maria da
Penha. Além desses 194, mais 30 projetos mencionam a norma, seja para
complementá-la, torná-la disciplina escolar ou usá-la como modelo para outras
leis.
Avaliação
das propostas
Priscila Brito, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), avalia
que a maioria das propostas que visam alterar a Lei Maria da Penha foca no
aumento da punição, e alerta que é preciso ir além, garantindo políticas
públicas contra a violência doméstica e orçamento para a implementação dessas
políticas. "Na nossa perspectiva, é importante o debate sobre a punição,
mas olhar só para a questão da punição na Lei Maria da Penha é uma redução da
importância dela", disse.
"Da
forma como ela foi concebida, pelo governo, pela sociedade civil e pelas
parlamentares em 2006, quando foi aprovada, é uma lei que prevê uma série de
políticas relacionadas, pela própria compreensão do movimento de mulheres de
que a violência, para ser enfrentada, precisa de política pública e uma
integração maior dos diferentes poderes e uma preocupação inclusive com a
promoção da autonomia econômica das mulheres, para que elas possam romper com o
ciclo de violência em que se encontram", acrescentou. Segundo Priscila,
"as mulheres mais pobres e mais vulneráveis estão mais à mercê da
violência doméstica".
O Elas no
Congresso, iniciativa da Revista AzMina que monitora os direitos das
mulheres no Poder Legislativo, avaliou junto a 17 organizações que trabalham
com os direitos das mulheres 649 projetos de lei sobre o tema apresentados na
Câmara e no Senado entre 2019 e 2020. E concluiu que 1 em cada 4 projetos é, na
verdade, desfavorável aos direitos da mulher, grande parte deles justamente por
focar exclusivamente na punição do agressor, o que, segundo as entidades, não
resolve as questões estruturais. O tema mais abordado pelas 649 propostas é
justamente a violência contra a mulher (48%).
"Sempre
que a gente fala de punitivismo, de uma punição muito severa, a gente está
afastando a vítima da denúncia e de uma rede de proteção, porque a gente está
ignorando a relação da vítima com o agressor", pondera Bárbara Libório,
coordenadora do Elas no Congresso.
Divulgação/Câmara Municipal de
Bauru-SP
Lei recente incentiva mulher a
denunciar violência desenhando um “X” na palma da mão
Alteração
recente
Publicada no Diário Oficial da União no dia 29 de julho, a Lei 14.188/21 incluiu no Código Penal o crime de violência psicológica
contra a mulher, com punição de seis meses a dois anos de prisão e multa, e
alterou a Lei Maria da Penha para possibilitar o afastamento imediato do
agressor do lar em caso de ameaça à integridade psicológica (e não apenas
física, como a lei previa antes) da mulher em situação de violência.
Oriunda de
projeto de lei (PL 741/21) das deputadas Margarete
Coelho (PP-PI), Soraya Santos (PL-RJ), Greyce
Elias (Avante-MG) e Carla
Dickson (Pros-RN), a norma também incentiva mulheres a denunciarem
situações de violência mostrando um “X” escrito na palma da mão, de preferência
vermelho, em repartição pública ou entidade privada participante.
Dentre as
alterações já feitas na lei, Carmem Campos, integrante do Consórcio Lei Maria
da Penha, destacou a criação do crime de descumprimento das medidas protetivas
(Lei 13.641/18). "Isso foi importante
porque muitos juízes e juízas não estavam entendendo que havia crime se
houvesse descumprimento de medidas protetivas", explicou.
Origem da
Lei Maria da Penha
O nome da lei homenageia Maria da Penha, que sofreu tentativa de feminicídio em
1983, ficando paraplégica. Até 1998, o agressor de Maria da Penha continuava em
liberdade, e o caso ganhou repercussão internacional e foi denunciado à
Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados
Americanos (OEA).
Em 2001, a
OEA responsabilizou o Estado brasileiro por negligência, omissão e tolerância
em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras.
A OEA
recomendou não apenas que o Brasil desse seguimento à devida punição do
agressor de Maria da Penha, como prosseguisse com uma reforma que evitasse a
tolerância estatal nesses casos.
Diante da
falta de medidas legais e ações efetivas, em 2002 foi formado um consórcio de
ONGs feministas que elaborou a primeira versão de uma lei de combate à
violência doméstica contra a mulher. Em 2006, após muita discussão na Câmara e
no Senado, a lei foi aprovada pelos parlamentares.
Reportagem
- Lara Haje
Edição - Natalia Doederlein
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