Representantes
de juízes e do Ministério Público rejeitaram a inclusão de suas carreiras na
reforma administrativa (Proposta de Emenda à Constituição 32/20). O
principal argumento é que, por causa da separação de Poderes, a reforma
administrativa somente poderia alcançar magistrados e procuradores se fossem
encaminhadas propostas de iniciativa do procurador-geral da República e do
presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em
audiência pública nesta terça-feira (6), deputados criticaram algumas vantagens
da carreira de magistratura, especialmente as férias de 60 dias. A proposta
original do Poder Executivo não inclui juízes e promotores na proposta, mas já
foi apresentada uma emenda, do
deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), para permitir que o
presidente da República, deputados e senadores também proponham alteração à lei
complementar do Estatuto da Magistratura. Outras emendas
poderão ser apresentadas até esta quarta-feira (7).
O relator
da comissão especial que analisa a proposta, deputado Arthur
Oliveira Maia (DEM-BA), afirmou que a PEC não interfere na autonomia
dos Poderes. Ele criticou as corporações e as férias de 60 dias para juízes.
"As corporações vêm fazer autoelogio e defender suas posições. Isso não
vai contribuir com esta comissão. Isso não vai modificar minha cabeça. Estes dados
que foram apresentados aqui não são nenhuma novidade", disse.
Arthur
Oliveira Maia ponderou que considera juízes e promotores carreiras típicas de
Estado, que terão conservadas a estabilidade e outras garantias. "Não vejo
o efeito que a PEC teria contra o Ministério Público e a magistratura. Hoje tem
situação de estabilidade, e continuará a tê-la na PEC", garantiu
Privilégio
O deputado Tiago Mitraud (Novo-MG) foi um dos que
defendeu o fim das férias de 60 dias, que considera um privilégio. "Não
tem nenhuma afronta ao Poder Judiciário defender o fim das férias de 60 dias. É
uma questão de isonomia entre qualquer brasileiro. Um absurdo que ainda existe
na nossa legislação." Tiago Mitraud lembrou que a média salarial da
magistratura estadual é de R$ 48 mil mensais, já considerando o abate-teto. Ele
ainda criticou o uso de aposentadoria compulsória como punição para juízes que
venderam sentenças.
O deputado
Neucimar
Fraga (PSD-ES) ponderou que a PEC não atinge direitos adquiridos e
somente alcança futuros servidores. Neucimar Fraga defendeu que a reforma
administrativa inclua todos os poderes. "Devemos acabar com privilégios e
penduricalhos que poucos servidores têm e impedem que outros sejam valorizados.
Quando a gente se propõe a fazer a reforma para cortar privilégios, vai sobrar
mais para valorizar os profissionais de educação e de enfermagem."
Andar de
baixo
Em contraponto, o deputado Rogério Correia (PT-MG) afirmou que a reforma
administrativa atingiria os servidores públicos atuais, especialmente os
servidores "do andar de baixo". "Podem perder remuneração e ter
redução de jornada. Professores não terão estabilidade e poderão ser expulsos
de sala de aula porque o prefeito quer", alertou.
Mesmo
declarando ser contrário à PEC, o deputado Gervásio
Maia (PSB-PB) afirmou que o Congresso teria competência para
legislar sobre outros Poderes. "Se mexer com servidor da base, vai ter que
mexer com todos para dar exemplo. Se podemos ser julgados por um outro poder,
podemos legislar sobre qualquer poder", afirmou.
Saúde e
dedicação
A presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Renata Gil de
Alcantara Videira, defendeu as férias para magistrados argumentando que outros
países também oferecem períodos superiores a 30 dias. A juíza também afirmou
que o Judiciário tem alta produtividade. "São 80 milhões de processos que
carregamos nos ombros, sete processos por dia para cada juiz", enumerou.
"A produtividade vem a um custo, com peso na saúde do magistrado. Adoecem
com o número excessivo de processos."
O
presidente da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp),
Manoel Victor Murrieta e Tavares, lembrou que juízes e promotores devem ter
dedicação exclusiva a suas funções e defendeu a estabilidade e independência
das carreiras de Estado. "A PEC 32 avança em precedentes que podem tornar
todos os poderes da República frágeis", alertou.
Já o
promotor de Justiça do Estado da Bahia e presidente do Instituto Brasileiro de
Direito Público, Paulo Modesto, defendeu um limite de 15% na contratação de
cargos de liderança e assessoramento, com relação ao total de cargos efetivos.
"Deve haver relação proporcional entre cargos de confiança e
efetivos", argumentou. Outras sugestões foram: exigir nível superior e
seleção para cargos de confiança; vetar o exercício de outras atividades fora
da função pública; proibir pagamento de dízimos a partidos; e coibir reajustes
de remuneração acima da inflação para cargos de confiança, especialmente na
véspera de eleição.
Vícios
O presidente da Associação Nacional dos Advogados da União (Anauni), Clóvis dos
Santos Andrade, afirmou que o texto da PEC traz vícios e a proposta nem deveria
ter sido admitida pelo Congresso. Ele criticou especialmente a criação do
vínculo de experiência, que teme levar a ingerências políticas no exercício da
advocacia pública. "O candidato desempenha funções sem ter tido a aptidão
aferida. A que tipo de pressão não se submeterão para não serem eliminados do
certame?", questionou.
A
diretora-presidente da Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos
Estaduais (Anadep), Rivana Barreto Ricarte, lamentou que a PEC não investe na
qualidade do serviço público, que poderia gerar economia. "Serviço público
de qualidade não é ônus, mas economia para o Estado", defendeu. Ela
observou que o Estado gasta proporcionalmente mais com advogados dativos em
municípios que não contam com defensores públicos.
O
procurador municipal e advogado no Rio de Janeiro Daniel Fernandes de Oliveira
defendeu a manutenção de remunerações como a licença-prêmio, quinquênios e
triênios. "Em muitos municípios, não são privilégios. Pode ser um
mecanismo para retenção de cérebros em municipalidades." Oliveira afirmou
que a PEC ofende o pacto federativo e a autonomia dos municípios.
FONTE: CAMARA FEDERAL
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